Todo idioma escolhe o que destacar
Quem fala português precisa decidir o tempo todo entre ser e estar. “Ele é chato” e “ele está chato” dizem coisas bem diferentes, e a língua obriga a gente a escolher. Em inglês, as duas frases viram “he is annoying”, e quem quiser deixar claro se aquilo é passageiro precisa explicar de outro jeito.
O caminho inverso também acontece. Em inglês, cousin serve para primo e prima, sem marcar o gênero. E todo brasileiro que já tentou traduzir “saudade” sabe que algumas palavras simplesmente não cabem em outra língua.
Aprender um segundo idioma é perceber essas escolhas. É descobrir que a sua língua presta atenção em coisas que a outra ignora, e vice-versa.
Até onde isso muda a percepção é uma discussão que a ciência ainda não fechou. Em 2020, pesquisadores britânicos e russos repetiram uma versão do experimento das cores e não encontraram a mesma diferença de velocidade. A leitura mais cuidadosa, por enquanto, é que a língua oferece atalhos para organizar o que percebemos, sem definir sozinha o que conseguimos ver.
Na cabeça das crianças
Onde as pesquisas trazem um resultado bem interessante é no jeito como a criança aprende a se colocar no lugar do outro.
Num estudo da Universidade de Chicago publicado em 2015, crianças de 4 a 6 anos brincavam com um adulto que não enxergava todos os brinquedos da mesa. Quando ele pedia “o carro pequeno”, a criança precisava pensar no que o adulto estava vendo para entregar o carro certo. As crianças que conviviam com mais de um idioma acertaram cerca de 76% das vezes, contra 50% das que só ouviam uma língua. Um estudo posterior do mesmo grupo encontrou sinais parecidos em bebês de pouco mais de um ano.
A explicação dos pesquisadores ajuda a entender que quem cresce cercado por mais de uma língua pratica o tempo todo a observação de quem fala o quê, com quem.
Na vida real, isso aparece em cenas bem comuns: a criança que fala português com a vó e inglês com a teacher, sem precisar pensar. Ou a que percebe que o amigo não entendeu uma palavra e procura outra para explicar.
Cada troca dessas é um pequeno exercício de enxergar o mundo pelo ponto de vista de outra pessoa.
Uma língua, muitas janelas
Se o ganho vem de conviver com outras formas de falar, faz sentido que o inglês seja aprendido assim também: em conversa, em contexto, perto de quem fala de outro jeito.
Tamara Dewes, cofundadora da Hey Peppers!, costuma dizer que aprender uma outra língua é aprender a se relacionar com o mundo.
Na rede, essa ideia aparece no calendário das escolas, com datas como o Halloween e o St. Patrick’s Day. Nesses eventos, as crianças descobrem por que os irlandeses se vestem de verde ou de onde vem a tradição do trick or treat, e usam o inglês para brincar, se fantasiar e entender costumes que não são os delas.
No caminho, elas praticam exatamente o que as pesquisas observaram: perceber que outras pessoas veem e celebram as coisas de um jeito diferente.